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12. Finalmente... o Dinheiro !

por PM, em 27.04.15

Por esta altura, começa a ser mais fácil aceitarmos a noção de como o campo de batalha em que se têm vindo a cometer as maiores atrocidades neste planeta são as nossas próprias cabeças... e só afirmamos que é nas nossas cabeças que se cometem as maiores atrocidades porque as que depois afectam os outros órgãos decorrem geralmente delas.

 

Assim, uma vez que já apreciámos alguns dos chavões com que a moderna "ciência política" nos foi redesenhando o mapa do Cosmos e nos anunciou o advento próximo do seu Império das Boas Intenções, apenas faltará perguntar porque teriam os nossos voluntariosos Iluminados desenvolvido tão notáveis anticorpos a todos os gigantes que os antecederam...

 

Dicebat Bernardus Carnotensis nos esse quasi nanos gigantum umeris insidentes, ut possimus plura eis et remotiora videre, non utique proprii visus acumine, aut eminentia corporis, sed quia in altum subvehimur et extollimur magnitudine gigantea.

 

Dizia Bernardo de Chartres que somos como anões aos ombros de gigantes, pois podemos ver mais coisas do que eles e mais longe, não devido à acuidade da nossa vista ou à altura do nosso corpo, mas porque somos mantidos e elevados pela estatura de gigantes.

 

Bernardo de Chartres, citado por João de Salisbúria, "Metalogicon", III, 4 (latim ou inglês).

 

A metáfora dos "anões aos ombros de gigantes", que nos tem sido impingida como produto do génio newtoniano em reconhecimento dos seus precursores "Kepler, Galileu, Descartes e outros", vai ironicamente servir-nos com a maior pertinência para mostrar as razões da aversão pública dos modernos a todos os gigantes que os tinham antecedido — afinal, a lição dos Clássicos não só não tinha sido rejeitada pelos "obscuros medievais", como até tinha sido preservada, respeitada, assimilada e ampliada pelo pensamento cristão. Mas vamos, para já, deixar esta questão pendente, uma vez que o nosso tema é outro...

 

... E é outro porque cada vez se torna mais claro como o principal desígnio da modernidade não estava minimamente relacionado com a recuperação de algum tipo de tradição perseguida pela cristandade durante a "Idade Média" nem com a introdução de nenhuma espécie de novidade ignorada pelos "obscurantistas". Na verdade, aquilo que efectivamente procurava o moderno era a corrosão dos fundamentos da Civilização Cristã que se tinha começado a erguer a partir das ruínas do Império desfeito...

 

Embora actualmente não se atribua importância ao assunto, foi por iniciativa cristã que a partir dos séculos XII e XIII começam a ser fundadas inúmeras universidades na Europa — e estas não só não dedicavam o seu tempo a queimar "hereges" como não tinham como exclusivo objecto de estudo a Teologia. Muito pelo contrário, entre as questões que começaram a preocupar com insistência os académicos contavam-se as dedicadas à política, à sociedade e à economia.

 

Deixando de lado, pelo menos para já, outros assuntos que seria muito esclarecedor abordar, interessa-nos realçar que se tinham tornado dignos de especial atenção os relacionados com a usura, a actividade bancária e a reserva fraccionária, bem como sobre o justo preço e a especulação...

 

Perante uma afirmação deste teor, os janotas globalizados que contemporaneamente dilatam a opinação pública hão-de sorrir com o mais sobranceiro desdém...

 

— Então não são exactamente esses os espinhosos temas que abordam com a maior objectividade os contemporâneos cientistas económicos ? O que é que uma mão-cheia de preconceituosos e obscurantistas medievais poderia ter a dizer de remotamente válido sobre eles ???

 

Aquilo que devemos reter neste momento é que, independentemente dos resultados a que tenham chegado os escolásticos, todas as reflexões que se façam sobre economia a partir do contexto de um pensamento cristão têm de ser conformes tanto com ineludíveis princípios como precisas finalidades...

 

... ou seja, os famosos princípios primeiros e as causas finais...

 

... e o que implicará isso senão aquela Metafísica tão avessa aos modernos ?

 

A despeito do clamor que neste momento deve assolar as hostes neo-paleo-positivistas, temos aí enunciada em epítome a "dialéctica" que percorre senão grande parte da história ignorada do "Ocidente", pelo menos longas páginas daquilo a que podemos chamar "reconstrução pós-Imperial":

 

a ética contra a finança...

 

 

venecia bancos.jpg

Mais violência medieval:
A longo de toda a "Idade Média", foram sistematicamente
condenadas todas as actividades de cariz usurário.
Uma gravíssima injustiça, não é?

  

 

[7, 12]

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publicado às 10:00

11. Idade das Trovas

por PM, em 20.04.15

Neste provinciano recanto da Europa a que nos deixámos ir confinando e onde nos habituámos a que as "novidades" apenas chegassem depois de devidamente digeridas e expelidas como "lugares-comuns" para consumo imediato das massas bem formadas, parece com frequência que apenas o regresso às antiguidades pode proporcionar uma salutar "mudança de ares".

 

Com efeito, é o generalizado pavor ao ar fresco que tem estimulado por cá uma abundante distribuição de "latinhas aromáticas de lugares-comuns" para que apenas os moscardos indesejáveis se sintam realmente compelidos a voar para outra coisa qualquer. Entre as "latinhas" de maior aceitação no mercado local, encontra-se a que lança os perfumes de "reles obscurantista medieval" e "retrógrado incorrigível" sobre os suspeitos do menor "revisionismo" capaz de amachucar o susceptível progressismo vigente.

 

É claro que o Iluminado sabe perfeitamente que se trata de um abuso inqualificável perante o fragrante relativismo que se faz sentir lá nas alturas... mas como cá por baixo o ambiente enlatado voltou a tresandar um pouco, lá teremos nós, então, de remexer nos velhos esqueletos do armário...

 

 

Esquecendo a sofisticação que exibe noutras áreas da sua actividade, o actual neo-paleo-positivista ignora, ou finge ignorar, que a "obscura Idade Média" com que deseja intoxicar toda a concorrência é realmente ainda muito mais obscura do que aquilo que ele pensa... Obscura, dizemos, enquanto ideia, claro.

 

Começa, porque soltada assim como "Média", nada mais é do que algo que não se nomeia entalado entre duas outras coisas por nomear também.

 

Notemos, contudo, que embora a confusão seja lançada ao ar para quem a agarrar, toda essa colecção de "não nomeados" está bem identificada para os bem formados que se lembram do respectivo nome próprio, contado e recontado lá na escolinha, quando eram pequenitos: a Antiguidade, a "época dos obscurantistas" e a Modernidade. Assim seguidinho era mais fácil de fixar.

 

Para continuar a caminhada, já começa a ser necessário "puxar mais pela cabeça", pois essa "obscuridade média" actualmente sem nome começou por o ter... e era exactamente o de "Idade das Trevas" — porque quem a baptizou assim estava prestes a zarpar em demanda da Luz dos Antigos Mestres. "Idade das Trevas" designava, por isso, aquele tempo que jazia entre a "Grande Obnubilação" da genialidade greco-romana e o "Renascimento", que se adivinhava com um potente facho, acenando lá ao fundo do túnel.

 

Desafortunadamente, não tardou que esses prospectores de Novos Mundos entrassem em desavença, assim que as Luminárias da Antiguidade lhes começaram a mostrar aquilo que não queriam ver... Mudar o nome à criatura seria, portanto, a melhor forma de agradar a Gregos e a Romanos — além de lhe dilatarem um pouco a longevidade, para acertar com a "revisão dos mil anos". Assim, a "Idade" tanto podia ser "Média" por continuar "entalada" — agora entre uma Antiguidade genuinamente arqueo-lógica e uma Modernidade comprovadamente progressista — como por passar a ser uma espécie de "mediação" — entre qualquer coisa que se perdera e que ressurgiu em conserva, para se voltar a usar um dia...

 

Estava encontrada a receita para agradar a progressistasconservadores. Segundo rezam as crónicas, esta "recauchutagem" teria começado a acontecer por volta do século XIX, e continua a acontecer ainda nos dias que correm. Incluindo por cá — mas o neo-paleo-positivista não tem obrigação de o saber... ou de o dizer... O que vai dar ao mesmo...

 

O importante neste jogo de cadeiras é que sob a conveniente capa de um "conceito vago" se esconde uma realidade complexa e contraditória que abrange desde a ruína de um mundo à sua reconstrução segundo uma ordem metódica.

 

Ora, o mais provável é que este método estivesse a cozinhar um status-quo muito incomodativo para... "determinados sectores"... Veremos...

 

 

Para que fique bem claro, não pretendemos fazer aqui nenhuma apologia ingénua de uma coisa que não existe... Nem propomos a "actualização" do obscuro conceito de "Idade Média" para qualquer diferente fantasmagoria abstractizante... Antes somos apologistas da respectiva explosão naquela nuvem de gás a que unicamente pode corresponder um flato da voz ---

 

--- embora, admitimos, não nos desagradasse sobremaneira substituir a pavorosa ideia da "Idade das Trevas" por outra muito mais sexy... como a de "Idade das Trovas"...

 

 

Trovadores.jpg 

CHOCANTE!
A face escondida da Idade Média:
folia trovadoresca...

 

 

[7, 11]

 

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publicado às 10:26

desígnio banalizador que expusemos atrás quando dedicámos algumas linhas aos fundamentos da "epistemologia" do insigne matemático René Descartes terá, sem dúvida, parecido excessivo aos nossos amigos de índole mais positivista, mas acontece que aquilo que pode distinguir com maior precisão os modernos Iluminados dos seus ilustres predecessores renascentistas é, precisamente, o tipo de Homem que tomam como modelo. Enquanto estes se tinham lançado numa alucinante marcha à ré em busca da sabedoria não adulterada dos Antigos Mestres e do Homem Arquitecto, a ambição dos visionários que se lhes seguiram, já curtida pelos rigores do tempo, era um pouco mais rasteira e ficou-se, por assim dizer, pelo homem nu, tipo... assim... "quase como veio ao mundo"...

 

Porém, contrariamente àquilo que se possa pensar, o ódio visceral que o moderno Iluminado desenvolveu relativamente aos Antigos Mestres depois de os despir da idealização bem intencionada em que aqui temos insistido não é uma mera suspeita de crítico empedernido... e está tão presente nas origens da Modernidade como na sua maturidade desiludida, mais de cem anos depois — senão vejamos:

 

Qui est-ce qui nie que les savans sachent mille choses vraies que les ignorans ne sauront jamais ? Les savans sont-ils pour cela plus près de la vérité ? Tout au contraire, ils s'en éloignent en avançant, parce que la vanité de juger faisant encore plus de progrès que les lumières, chaque vérité qu'ils apprennent ne vient qu'avec cent jugemens faux. Il est de la dernière évidence que les Compagnies savantes de l'Europe ne sont que des écoles publiques de mensonge, & très-sûrement il y a plus d'erreurs dans l'Académie des Sciences que dans tout un peuple de Hurons. Émile, L. 3.

 

[Quem negará que os sábios saibam mil coisas verdadeiras que os ignorantes não saberão jamais? Os sábios estarão, por isso, mais próximos da verdade? Bem pelo contrário, eles afastam-se dela quando progridem, porque como a vaidade de ajuizar faz mais progressos do que as luzes, cada verdade que descobrem chega sempre com cem juízos falsos. Como se tem vindo a tornar evidente, as Sociedades de sábios da Europa não passam de escolas públicas da mentira, e encontram-se seguramente mais erros na Academia de Ciências do que numa aldeia de Hurões. Emílio, Livro 3.]

 

Em J.-J. Rousseau, "Rousseau, Juge de Jean-Jacques — Dialogues". Londres: (Brooke Boothby), 
1782 [redacção, 1772–76; pub. inicial, (1780)], Tomo 2, Troisième Dialogue,
 p. 186.

 

Agora, a amargura do bem intencionado ultrapassa finalmente a faculdade de julgar, moralmente metamorfoseada, em vez de numa linda borboleta, na gorda e horripilante traça que é a vaidade de julgar... Para o moderno não foi preciso muito mais de um século para descobrir que, bem vistas as coisas, "o poder de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso" não era mesmo "a cousa do mundo mais bem distribuída"... Que aborrecimento... Porém, essa descoberta não estava desligada da mais importante das consequências...

 

... afinal, o sítio onde esse "poder de bem julgar" jamais se poderia encontrar de forma alguma era — pasme o patego! — entre "os sábios"!!!

 

Ora, se a banalização da faculdade de julgar funcionou de forma tão útil no que respeita ao poder de bem julgar, nada mais seria necessário senão encerrar com chave de ouro a questão da Moral... ou seja, cilindrar a viciosa ufania dos sábios...

 

Sumário da Modernidade II

 

Das Boas Intenções ao Inferno

 

Sem, de forma alguma, pretender elaborar eruditamente sobre o assunto — algo de tão inaceitável para um moderno do século XVIII como para um leitor desta nossa contemporaneidade tão... hipermoderna —, assim como Descartes nos serviu de paradigma para a banalização da faculdade de julgar, Jean-Jacques Rousseau pode desempenhar o mesmo papel no que respeita à banalização da Moral que, no fundo, mais não corresponde do que à consequência lógica daquela moral provisória que o seu precursor nos tinha proposto logo de início...

 

(...) la nature a fait l'homme heureux & bon, mais que la société le déprave & le rend misérable. L'Emile, en particulier, ce livre tant lu, si peu entendu & si mal apprécié, n'est qu'un traité de la bonté originelle de l'homme, destiné à montrer comment le vice & l'erreur, étrangers à sa constitution, s'y introduisent du dehors, & l'alterent insensiblement.

 

[A natureza produziu o homem feliz e bom, mas a sociedade corrompe-o e torna-o infeliz. O "Emílio", em especial, esse livro tão lido, mas tão mal compreendido e tão pouco apreciado, é apenas um tratado sobre a bondade original do homem, destinado a mostrar como o vício e o erro, estranhos à sua constituição, se introduzem nele a partir do exterior e o modificam imperceptivelmente.]

 

J.-J. Rousseau, "Rousseau, Juge de Jean-Jacques — Dialogues". Londres: 
(Brooke Boothby), 1782 (1780), Tomo 2, Troisième Dialogue, 
p. 224.

 

"Bondade original"? Claro! Nesta altura, já estamos habituados a que o bem intencionado moderno disponha assim livremente do nosso Cosmos a partir do... seu Verbo.

 

Segundo anuncia este novo insuflador do espírito, afinal o homem nasce bonzinho e contente, e é a sociedade — "a boa sociedade", ter-se-ia esquecido de adjectivar... — que o maltrata. Ora, além de imediatamente nos saltar à vista o sorriso cândido do recém-nascido inocente, facilmente imaginamos as mamocas que tanta felicidade lhe dão. Os tratos de polé a que a sociedade bem-pensante (da época, claro), depois, sujeitava a indefesa criatura, isso nem vale a pena lembrar... são por demais evidentes.

 

Ora aí temos a banalização naturalista da moral — o apelo à lágrima fácil da comiseração que instituiu o sentimentalismo burguês e a apologia onírica dessa felicidade original e impensada, fabricada de puro desejo, essa felicidade na saciedade que irá ser o esteio daquele sensualismo igualmente burguês.
 

Não nos censurarão agora por perguntarmos que patético desígnio poderia ocultar esta urbanizada "moral natural" do burguês que nunca soube o que era semear uma batata ou depenar uma galinha... Afinal, se a banalização da faculdade de julgar já tinha antes estabelecido o império da opinião — no fundo, aquele "direito ao livre-exame" que vinha de trás , que "grande novidade" poderia lançar este insólito assalto à... "moralidade erudita"?

 

Sem pretender antecipar vastas torrentes de argumentos acerca de uma das perspectivas sob as quais é mais curioso observar a Modernidade justamente, a da questão Moral e da lenta transformação deste conceito num palavrão obsceno —, permitam-nos lembrar que aquilo que nela se encontra velado é, essencialmente, uma acintosa apologia da vida instintiva. A esta regressaremos mais tarde.

 

Para já, de forma a sermos clarosobjectivos nas nossas intenções e abreviarmos uma incursão que já vai excessivamente longa, a trama que temos vindo a expor é tão óbvia que só poderia escapar a uma geração particularmente embrutecida — afinal, de nada mais aqui se trata para além da exposição de um processo que visa a abolição dos valores que decorreram da difusão da Civilização Cristã na Europa.

 

Não é novidade nenhuma??? Claro que não! ... Mal seria se nos propuséssemos encontrar mais novidades além das que nos oferecem de bandeja os modernos — sejam super, sejam hiper, sejam eternos!

 

Prosseguiremos entretendo-nos com antiguidades descendo aos infernos, portanto...

 

 

Yağlı-Boya-Tablosu1.jpg

Apenas para os sentimentalistas verdadeiramente burgueses:
uma antiguidade moderna... ou uma modernidade antiga, talvez...
[Giovanni Bragolin, "O Menino da Lágrima", c. 1950]
[a sério: vale mesmo a pena ir ver!]

 

 

[7, 9]

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publicado às 17:18

9. Da Estupidez Natural

por PM, em 13.04.15

Neste momento, é forçoso para nós admitir que a incursão que dirigimos até aos baluartes mais remotos da modernidade mais não fez do que pôr a descoberto um segredo de polichinelo... As falácias que mencionámos são abordadas com o rigor conveniente em qualquer manual de filosofia minimamente honesto — aliás, o trilho seguido pela especulação filosófica a partir do século XVII consistiu, exactamente, na reparação desesperada dos fundamentos desse edifício que tinha nascido estruturalmente ferido...

 

Porém, se os dois pilares da modernidade enfermavam de uma falta de fundamento tão manifesta, teremos de admitir que apenas um programa de embrutecimento especialmente intenso, transversal e sustentado poderia assegurar não só a respectiva difusão, mas, sobretudo, a aceitação dos seus postulados, acatados como axiomas evidentes por tão largos sectores das sociedades contemporâneas...

 

Recapitulemos, portanto...

 

Sumário da Modernidade I

 

Da Estupidez Natural

 

A primeira aberração da modernidade foi, como vimos, a afirmação segundo a qual "a razão é naturalmente igual em todos os homens".

 

Ironicamente, para o néscio parece não haver nada mais óbvio — aliás, os modernos até lhe embrulham no pacote a confidência de que a apologia da racionalidade foi uma das mais gloriosas vitórias das Luzes contra as "irracionais trevas da religião católica", que até então teriam mantido na servidão a Europa e o Mundo.

 

Isto conduz-nos imediatamente a uma primeira constatação — torna-se fácil perceber agora por que motivo o "esplendoroso portal da Modernidade na área da especulação filosófica" nos foi oferecido em vernáculo: Descartes teria publicado o Discurso do Método em língua francesa porque a sua obra só podia ter como público esse burguês néscio que acabámos de nomear. "Burguês", porque tinha de dispôr de ambição de poder, de vontade de afirmação social e de posses suficientes para as concretizar. "Néscio", porque possuindo igualmente as primeiras luzes nas letras da sua língua materna, lhe faltava o domínio do latim para progredir nas Artes mais elevadas... Em suma, o leitor tinha de confundir a mera capacidade de ler e interpretar um texto com a faculdade de ajuizar sobre ele — ou seja, de avaliar criticamente o fardo de palha que lhe punham à frente.

 

Ontem como hoje, afirmar que o catolicismo defende alguma espécie de irracionalismo ou de inaptidão cognitiva humana é ignorar toda a história do pensamento cristão, especialmente em tudo aquilo que se deve às formadoras intervenções de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino — ou seja, é fácil, mas especialmente preconceituoso. Vemos assim como a falsa questão da "racionalidade" não passa de um espantalho para afastar a atenção daquilo que verdadeiramente caracteriza a modernidade: a determinação de fazer responder todos os homens perante o tribunal da razão com natural igualdade.

 

Uma segunda constatação refere-se ao abstraccionismo delirante de que faz prova o moderno... apresentar a existência de uma entidade universal a que se possa chamar "razão" — ainda que se trate de algum tipo de "A Razão" — e a existência de um conjunto de entidades universalmente idênticas a que se possa chamar "homens" em que a primeira entidade esteja também neles presente de forma universal, natural e idêntica é remeter a argumentação para um campo que permanecia tão intricado no século XVII como nos dias que correm... Ou seja, não é uma proposição que se possa apresentar como evidente em dois parágrafos. A clareza e a distinção já se encontravam perdidas, e a obra não tinha passado ainda da primeira página...

 

Mas o que permitirá, então, a este medíocre produto do engenho humano pronto para colapsar tão clamorosamente sob o mais superficial escrutínio ser elevado até aos píncaros da fama entre os nossos amigos progressistas?

 

Comecemos por notar que a naturalização da razão de que ele é, na verdade, o estandarte e a equalização do ser humano face à faculdade de julgar que nele se propõem correspondem, mais ou menos subrepticiamente, a uma banalização do sujeito cognoscente. Com efeito, se virmos o Discurso do Método sob esta óptica, percebemos como ele é instrumental para a demolição da autoridade da Escola, para a demolição da autoridade dos Velhos Mestres, para a demolição, no fundo, de um método e de um sistema que ele pretende apresentar como esgotados. E dizemos instrumental porque o importante não é, de todo, aquilo que nele se expõe — mas a forma banalizadora como o faz. O importante não é que ele se pronuncie — de jeito canhestro, aliás — contra a autoridade, mas, exactamente, que o faça da forma mais leviana e mais acessível:

 

Não interessam os argumentos, é suficiente o topete.

 

Na verdade, o espírito filantrópico do autor foi o de pôr nas mãos de qualquer burguês com meia dúzia de francos um calhau para arremessar à cabeça dos doutos... e, assim, colocar no apogeu dos Valores Supremos a sublime virtude das "boas intenções humanistas" — neste caso, as de proteger o experimentalismo subjectivista contra a autoridade da Escola.

 

Acrescentemos ainda que estas boas intenções são de tal forma notáveis que, além de franquearem os Foruns da Ciência aos opinadores comuns e ao seu inestimável bom senso, além de banalizarem, como dissemos, a faculdade de julgar, permitiram da mesma assentada banalizar o objecto a conhecer...

 

Para o burguês néscio, afinal, para que poderiam interessar os princípios ou os fins???

 

Apetece pensar — Como ele, limitemo-nos aos meios, que, isso sim, é o que nos vai enchendo a barriga...

 

Acabamos de denunciar as boas intenções... agora só falta perceber-lhes claramente os objectivos.

 

 

N02689_10.jpg

 Cenas dos próximos capítulos...

(George John Pinwell, "Study for ‘The Pied Piper of Hamelin’: The Children", c. 1871)

 

 

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publicado às 11:51

8. Tempos Modernos (Os Selvagens)

por PM, em 11.04.15

Se a primeira falácia do modernismo nos pôs todos a afinar alegremente pelo mesmo diapasão empíreo como dóceis operários normalizados da cadeia de montagem dos filantropos, a segunda "falácia original" com que nos brindaram estes valentes amigos do alheio não estava menos repleta de boas intenções...

 

Boas intenções, até será pouco — porque o que se tratava mesmo era da Restauração do Paraíso Terreal nos quintais dos nossos tetravôs! Afinal, depois de serodiamente se ter instalado ao leme da sua poltrona de luz e divagar ele também por todos os mares antes mapeados, o Iluminado não podia deixar os seus créditos por mãos alheias e apresentar ao Mundo um Descobrimento de menor quilate que os do lusitano patego!

 

Qual Caminho Marítimo para Índia, quais Santas Cruzes, Ceilões ou Malucas!? Qual pimenta, qual ouro, quais chás, pau preto, noz moscada ou canela!? Aquilo que o Iluminado tinha para nos trazer era nada mais nada menos que uma evidência do Paraíso... em pessoa e em pêlo!!!

 

Com efeito, a novidade do nosso Prometeu renascido ultrapassava de longe as fantasias dos já alquebrados pioneiros renascentistas que, dedicados ao resgate das "Eras de Ouro" de saudosa memória, as transplantavam para quaisquer nenhures mais ou menos ao pé, insuflando os seus contemporâneos de uma fé tão progressista e redentora quanto, infelizmente, pouco original e competitiva... Nada disso!

 

A magna descoberta das Luzes era a de que, afinal, as narrativas da Queda que há milénios assombravam aqueles paraísos perdidos não passavam de mitologia ignorante! E para o atestar, bastava observar os retratos dos "selvagens" desenhados nos mapas! Como é que essa gente tão festivamente emplumada e em corpo tão bem feito permitiria continuar a esconder aos olhos de uma geração emancipada que a filiação da decadência e do deboche só podia radicar na própria... Civilização???

 

Afinal, o Éden estivera sempre ali, logo a oeste do nosso nariz, servindo de abrigo à mais pura natureza humana enquanto se banqueteava com manás de ambrósia silvestre e copulava sem culpa... Extraordinário! A sagacidade do Iluminado permitia-lhe desvelar a Suma Verdade durante tanto tempo ocultada! Portanto, não era apenas a Razão Universal que se encontrava naturalmente em todos os homens — debaixo da parra, eram os numinosos frutos da própria moral natural que se podiam também contemplar!!!

 

Então, seria neste paradigma do Homem Puro há tanto esquecido entre os arcanos das Ilhas Perdidas que se encontrava a Arca do Tesouro Supremo, não só guardando a gema Pura da Razão, mas também — Oh, milagre dos milagres! — a sua versão ersatz, o colorido cristal da Razão Prática! Em suma, a higiene do "pecado original" não exigiria mais do que uma "pequena remoção" de toda a Moral, de toda a Ética, de toda a Deontologia com que, abusivamente, a Civilização Ocidental e Cristã teria sepultado a beleza erótica da Humanidade Impoluta!

 

Ao invés das áridas congeminações sobre a "razão pura", as especulações titilantes sobre o "bom selvagem" beneficiaram de excelente acolhimento não só entre a fina-flor da "alta sociedade" erudita mas até entre a ralé menos dada à especulação metafísica, e é, sem dúvida, o rotineiro regresso a este sensualismo interclassista que permite inebriar os Povos de cada vez que se lhes torna penoso dar mais um passo em frente rumo ao Abismo...

 

Teremos, com certeza, recorrentes oportunidades de regressar a tão frutuoso tema...

 

 

Eugène_Delacroix_-_La_liberté_guidant_le_peuple.

Uma "boa selvagem" em rebelião contra a cidade — não há nada como
um bom par de mamocas para estimular a consciência política...
(Delacroix, "La Liberté Guidant le Peuple", 1830)

 

 
[7, 9]
 
 
Post Scriptum

 

Na verdade, a temática do "bom selvagem" é de tal forma catalizadora que tem inspirado incontáveis "programas de actualização" depois do seu primeiro pulular debaixo do Sol. Entre os mais curiosos, conta-se o congeminado por Margaret Mead nos primeiros anos do século XX. Aquilo que este tem a revelar sobre as insondáveis profundezas do espírito da modernidade é especialmente interessante. Em mais de um sentido...

 
 

Coming_of_age_in_Samoa_title_page.jpg

 

Asselvajando os selvagens...
Ou Margaret Mead e o "fardo da mulher branca".
 

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publicado às 15:59

7. Tempos Modernos (As Razões)

por PM, em 07.04.15

O temor reverencial que as antenas estrangeiradas da cultura local conseguiram deslocar para a esfera de tudo o que nos chega com chancela de longe foi assumindo ao longo dos tempos modalidades deveras elaboradas e, sem dúvida, merecedoras da maior atenção. Neste momento, porém, esse vício da vontade interessa-nos exclusivamente enquanto "versão higienizada" do abominado "argumento da autoridade" que se tem vindo a difundir com presteza entre os mais recentes frequentadores dos nossos olimpos para inglês ver, através da desmesurada inflação das "figuras exemplares" da tão incensada "Cultura Universal".

 

Certamente, esses eruditos por conta de outrem hão-de classificar como megalómana soberba a pretensão de demolir em duas penadas o templo da modernidade laboriosamente erguido pelos mais luminosos arquitectos do humanismo filantrópico depois que resolveram reerguer-se das trevas. Todavia, será precisamente esse o nosso desígnio nos próximos tempos, pois em boa verdade aquele colosso grutesco elevado a perder de vista até às alturas apenas possui como alicerce no submundo dos mal-entendidos um par de falácias esquecidas que insidiosamente tomaram o lugar de incontornáveis pilares da Civilização Ocidental.

 

O primeiro desses dois aleijões do intelecto humano que só o supramencionado temor reverencial vai mantendo ao abrigo de qualquer escrutínio lúcido é-nos familiar desde os bancos das escolas secundárias — aqueles estabelecimentos que os formatadores de mentes escolheram para nos ir impingindo oficialmente a excelência do embrutecimento:

 

O bom senso é a cousa do mundo mais bem distribuída, porque cada qual pensa ser tão bem provido dele que mesmo os que são mais difíceis de contentar noutras cousas não costumam desejar mais do que têm. E não é verosímil que todos se enganem a tal respeito; antes isso mostra que o poder de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se chama bom senso ou razão, é naturalmente igual em todos os homens; e que assim a diversidade das opiniões não resulta de serem uns mais racionais do que os outros, mas somente de que conduzimos os nossos pensamentos por caminhos diversos, e não consideramos as mesmas cousas.

 

René Descartes. O Discurso do Método. Lisboa: Sá da Costa, S/D [1637], p. 5, Primeira Parte, § 1.

 

Para o leitor mais atento, será fácil perceber porque é que as primeiras linhas desta obra que é considerada como o esplendoroso portal da Modernidade na área da especulação filosófica não se encontram entre as mais publicitadas pelos aduladores do respectivo autor. Afinal, só o acompanhamento da sua leitura com avultadas doses de incenso reverencial permite dissimular como nelas se encontra a mais patética amostra do que pode ser uma argumentação acerca da natureza racional do ser humano.

 

Com efeito, a listagem de falácias identificáveis nestas tão breves linhas é de tal forma notável que a dúvida hiperbólica sugerida será unicamente a de saber se não se encontrarão lá todas elas... Atalhando caminho, este verboso arrazoado que, dizem os exegetas, pretenderia aplicar à filosofia a ordem da dedução geométrica, mais não faz do que pomposamente maquilhar como evidência axiomática aquilo que não passa de uma hipótese, a saber — que a "razão é naturalmente igual em todos os homens." O resultado é uma descarada petição de princípio, apenas ignorada pelos néscios porque lhes parece derivar necessariamente daquela tradição filosófica que define o ser humano como "animal racional"... Adiante...

 

Ora, identificar "razão" e "bom senso" sob a capa da grosseira noção de "poder de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso", admitir como "naturalmente igual" o desenvolvimento de uma faculdade, competência ou função que se manifesta sob formas tão diversas e os complexos traços que lhe poderão estar na origem, decretar mandamentos para "todos os homens" à imagem de um Deus omnipotente — isso não foi, com certeza, lançar as bases de nenhum "progresso" do conhecimento humano. Foi, isso sim, deixar abater a confusão sobre os homens e lançar ao lixo longos séculos de fastidiosas indagações sobre a complexidade para erigir em princípio supremo da antropologia uma compulsão intelectualista, abstractizante, reducionista, normalizadora e massificante — foi, como veremos, decretar o regresso da servidão do Homem:

 

[...] E não sei de outras qualidades que sirvam para a perfeição do espírito, porque, quanto à razão ou senso, que é a única cousa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que existe inteiramente em cada um, seguindo nisto a opinião comum dos filósofos, que dizem não existir mais ou menos senão entre os acidentes e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos duma mesma espécie.

 

René Descartes. O Discurso do Método. Lisboa: Sá da Costa, S/D [1637], p. 5, Primeira Parte, § 2.

 

Ora, aquela entidade à qual apenas convêm as substâncias normalizadas, as substâncias sem acidentes contingentes, é a técnica

Por isso, repetimos, postular a razão como forma pura do Homem não é anunciar "progresso" nenhum — antes é decretar o "regresso às origens" e impor um novo dogma de fé: destituído da liberdade, o Homem não se distingue das outras coisas do Mundo...


Depurado da ordem concreta das razões, o ser humano deixa-se inadvertidamente encerrar no Império Abstracto da Razão Pura, no Império Abstracto da Tecnociência.

Bem-vindos ao passado...

  

 

 

"я твой слуга, я твой работник"
Perceber uma nesga de russo sempre foi muito útil...

 

 

[7, 8]

 

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publicado às 12:27

6. Tempos Modernos (As Quedas)

por PM, em 02.04.15

Para a bem-aventurada fornada de idealistas que viu a luz no início da segunda metade do século XX e medrou embalada no regaço globalizante da Grande Matriz da Fraternidade Universal com as generosas colheradas da paparoca de substituição dos "amanhãs que cantam", o intempestivo reconhecimento da orfandade original nas cruéis garras da Realpolitik que se soltou da jaula logo nos primeiros anos do terceiro milénio produziu o triste efeito de uma baldada de água fria.

 

Se até então o cinismo sobranceiro e blasé desta escol de babete ainda se ia conseguindo alimentar com as derradeiras migalhas dos erários públicos, a ruína das torres anunciou com notável subtileza que "a liquidez" até então canalizada para os mananciais da "boa disposição" estava a fazer mais falta "noutras geografias". Maquilhar de tons graves a política macaca da sociedade circense em vigor deixava de ser uma prioridade — era chegado o momento de esquecer a sofisticação e regressar ao modelo do entretenimento barato. Afinal, depois da generalização da Grande Teia Global, até mudara de pouso aquela clientela instruída que lá ia rentabilizando os caquécticos bastiões mais elitistas do quarto poder.

 

Concluído mais um ciclo do investimento, regressava-se, portanto, à cultura dos pasquins, da literatura de faca e alguidar, das operetas de cabaré — à apologia fácil da licença geral, sejamos literais por uma vez. O ciclo da cobrança coerciva só tem a beneficiar com o nivelamento por baixo, e é essa mesmo a vanguarda que prepara o terreno para o poder dissoluto e dissolvente que tanto facilita a operação dos agentes de execução. No fundo, nem sequer seria muito bonito recusar a última vontade de um paraíso artificial aqui em baixo a quem já tudo perdeu nas alturas...

 

Atomizado e embrutecido pelas fabriquetas da bizarria e do ódio, o destroço aviltado da "mais bem formada geração" já não ousa aspirar a nenhuma imagem de Deus — destituído tanto de profundidade como de elevação, mortalmente ferido no orgulho e incapaz de se reconhecer entre andrajos, prefere a idealização bestial de uma inocência quadrúpede.

 

Da prometeica soberba à servidão animal, não escasseiam os arcanos da Queda...

 

... mas nos anjos caídos permanece tenaz o apego aos modernos.

 

 

Peter Paul Rubens, Prometheus Bound.jpg

Independentemente da fonte, esta história nunca costuma
acabar muito bem
... para a maioria, como é evidente.
(Peter Paul Rubens, "Prometeu Agrilhoado", 1618)

 

 

[6, 7]

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publicado às 16:48


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