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15. Circunvoluções Cerebrais

por PM, em 22.05.15

Agora, talvez nos comece a ser mais fácil vislumbrar com clareza os contornos do artifício que desde há séculos nos vai mantendo agrilhoados como presas incautas de um irresistível encantamento obnubilante... "Encantamento", porque o produto da sua arte é precisamente a sedutora retórica de "boas intenções" que temos vindo a expor. "Obnubilante", porque um dos seus principais desígnios é o de apagar da nossa "memória viva" todos os instrumentos que poderiam promover uma apreciação crítica ou até meramente contrastiva dos valores que promove...

 

Mas retomemos sem sobressaltos a caminhada...

 

Como vimos, entre os diversos efeitos da pirotecnia narrativa que se tem vindo progressivamente a associar ao conceito de "revolução" conta-se o de favorecer o esquecimento do seu significado originário — ou seja, aquele que umbilicalmente unia revolução e rotação e que, em tempos, permanecia bem claro entre nós...

 

Ora, é partir da consciência clara deste fenómeno que cai em nosso poder a chave que nos permitirá compreender como aquele "processo-progresso revolucionário" cujas virtudes não cessam de nos dulcificar não passa da engrenagem conceptual que, a partir de determinado momento histórico, a modernidade decidiu acoplar ao seu motor da história...

 

Convém que fique bem claro que longe de se tratar de um artifício de retórica, a engrenagem que aqui mencionamos é um autêntico dispositivo com diversos efeitos mensuráveis. Entre eles, há um até cujas virtudes os "apóstolos do progresso" não se cansaram de enaltecer publicamente, enquanto o espírito de rapina não estava ainda suficientemente enraizado entre nós — exactamente o de desamortização.

 

Bastarão aqui alguns conhecimentos de história para recordar como, sem a menor sombra de dúvida, a engrenagem conceptual da "revolução" representou o esquema ideológico a que foi necessário adaptar as mentes para as tornar receptivas ao processo de reintrodução na economia das trocas, ou seja, de reintrodução no grande mercado, de todas aquelas riquezas que até então se encontravam acumuladas em... "mãos que não interessava..."

 

... E se progredirmos no reavivar das memórias do que foram as sucessivas desamortizações dos bens da Coroa, dos conventosda igreja, dos foros e terras comuns ou a abolição do morgadio, mas também fenómenos mais subtis, como a introdução do registo predial e do registo civil, ou até do sistema métrico, iremos colocar-nos na via da descoberta de como, a despeito da bondade que estamos condicionados a associar a todos esses revolucionários progressos e muito ao contrário do que gosta de nos convencer o Iluminado, nenhum deles foi especialmente bem recebido entre os Povos — ainda que inebriassem até ao êxtase tanto uma massa exaltada de assalariados miseráveis e pequenos-burgueses rapaces como um selecto naipe de grandes aristocratas bem (in)formados...

 

... e não é difícil perceber porquê, se repararmos como todo esse processo-progresso esteve estreitamente unido à formação dos Estados-nação, à multiplicação dos dos bancos centrais e ao desenvolvimento da banca comercial, bem como à correspondente generalização dos títulos de crédito e da moeda fiduciária.

 

Nestes parágrafos, apenas levantámos a ponta do véu de mais um dos extraordinários segredos de polichinelo da modernidade, pelo menos no nosso jardim à beira-mar plantado — afinal, nada está muito escondido... apenas há toda uma História para "relembrar".

 

E para não cairmos na demagogia do inimigo, continuaremos a progredir metodicamente...

 

 

Fig-1.jpg

Antes da invenção dos ordenadores, todo o processamento tinha de se fazer 
recorrendo à 
machina... agora, já não faz tanta falta.

 


[12, 14]

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publicado às 13:51

14. Revoluções Culturais

por PM, em 18.05.15

A despeito das tão tradicionais como insanáveis querelas filosóficas, até ao início do século XX o conceito político de "revolução" tinha conseguido permanecer relativamente transparente na cabeça da maioria dos "actores sociais" enquanto imagem vividamente associada à ideia de sublevação dos estratos inferiores de uma qualquer sociedade com o objectivo de atingir de forma violenta algum tipo de ascenção social e a consequente subjugação dos estratos superiores dessa mesma sociedade.

 

Admitimos que seria igualmente em função desse tipo de representação que as "revoluções" estavam consensualmente remetidas para um estatuto de excepcionalidade, enquanto recurso de última instância para solucionar os conflitos sociais mais graves, de impossível resolução por outra via.

 

Porém, desde essa "remota pré-história conceptual" muita água passou debaixo da higienizante "ponte da escolaridade laica e obrigatória", e uma longa sucessão de bem intencionadas lavagens cerebrais conseguiu enquistar em todas as "cabecinhas bem formadas" a magnificência e magnanimidade da ideia de "revolução" como mais adequado sinónimo para o conceito de "progresso"...

 

Basta-nos recordar aqui as incontáveis narrativas que abrangem desde a Revolução Neolítica à Revolução Digital, da Revolução Copernicana de Copérnico às Revoluções Copernicanas de... Kant ou quaisquer outros, da Revolução Industrial às Revoluções Industriais SegundaTerceira e Muitas Mais, ou das sofisticadas Revoluções Científicas às mais popularuchas Revoluções Sexuais ou Revoluções Coloridas...

 

Ora este singelo processo de depuração conceptual que permitiu substituir a estafada ideia de "processo revolucionário" pela mais estimulante de... "progresso revolucionário" conseguiu também obter o notável efeito de lavar as mãos conspurcadas de sangue dos apologistas das "jornadas revolucionárias" que se foram sucedendo na Europa depois da instalação das utopias da modernidade e convencer o incauto de que é essa mesmo a natureza das coisas.

 

Estava finalmente inventada a fórmula de dourar a pílula para os mais recalcitrantes, instalar na rotina do cidadão a ideia de que o caos é o estado normal do... cosmos... e produzir um inexaurível filão de produtos bombásticos com êxito comercial garantido.

 

• 

 

AFP_Getty-514626584.jpg

 Para cada revolucionário instalado, há-de chegar sempre um outro mais fresco...

 

 •

 

[13, 14]

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publicado às 13:43

13. Revoluções Intestinas

por PM, em 17.05.15

Chegámos, portanto, àquele momento civilizacional em que contrapor qualquer coisa que se ouse designar como obscuros interesses da finança a qualquer outra coisa que se tenha a desfaçatez de nomear como princípios éticos apenas produz o irremediável efeito de atrair sobre si o opróbrio unânime de uma horda de intelectuais bem pensantes para os quais foi exactamente o divórcio entre estas duas "coisas estranhas" que teria incontestavelmente assinalado o pontapé de partida para a fabulosa Era de Progresso e Liberdade de que nos têm dado inequívoco testemunho os últimos séculos de história europeia...

 

... E na verdade, depois de percorrer as parangonas de alguns dos pasquins mais em voga, é quase impossível deixar de reconhecer que os tempos que nos tem sido dado viver não podem sequer ser descritos por nenhuma expressão em que não esteja presente algum adjectivo próximo de "prodigiosos" — isto se não existisse já desde há algum tempo um outro termo devidamente consagrado para o efeito, que é exactamente o de... "Revolucionários" !

 

"Era Revolucionária", isso sim !... Porque depois da inaugural Revolução Francesa — ou, se preferirem, da mais discreta Revolução Americana (e não é necessário recuar muito mais, porque o experimentalismo de Cromwell acabou por ser convenientemente higienizado da memória do vulgo) — o conceito de "Revolução" foi-se introduzindo subrepticiamente mas com grande júbilo no vocabulário e nos hábitos de lazer de uma certa sociedade "erudita".

 

No entanto, e a despeito do que geralmente nos querem fazer crer os telejornais, para o "cidadão comum", a ideia de "revolução" não evoca, por si só, nenhum tipo de associações especialmente enaltecedoras... Neste momento, se vivessemos numa sociedade saudável, levantar-se-ia até a questão de saber porque é que uma ideia que, basicamente, repugna à maior parte das pessoas que todos os dias têm de sujar as mãos para "desfrutar do pão que o diabo amassou", pode ser tão venerável para um outro grupo de pessoas que anafadamente vai debitando bitaites a partir de alguma das cátedras justamente criadas para o efeito.

 

Mais uma vez, seguiremos por partes...

 

 

Eugène_Delacroix_-_La_liberté_guidant_le_peuple.

  O bom burguês vai sempre aperaltado para a festa...
... ou como é inevitável uma rotineira visita a Delacroix.
(Eugène Delacroix, "La Liberté Guidant le Peuple", 1830)


E para que não se diga que tudo é mera especulação, aí
vai anexo o bem-instalado retrato do retratista...

Delacroix par Nadar.jpg

 Delacroix, por Nadar.

 

 

 [12, 13]

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publicado às 10:27


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